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terça-feira, 17 de novembro de 2009

Cuidado com as palavras: elas são muito perigosas.

Por: Zezé Brandão

A Visa Net, essa rede de pagamentos eletrônicos, mudou de nome. Agora se chama Cielo, para lembrar céu, que é para onde se sentem ir os consumidores que compram tudo o que lhes passa diante dos olhos – é só estender o cartão e pronto, a felicidade
está garantida (e o paraíso também).

Enfim, não é disso que pretendo tratar aqui, mas do uso das palavras escolhidas para o posicionamento da nova empresa no mercado. Como publicitário, sei que para se chegar a um conceito que resuma a missão, o relacionamento de uma marca com seu público, consumidor ou institucional, não é trabalho pouco. São idas e idas e vindas e vindas e reuniões agendadas e emergenciais, envolvimento de todos os níveis hierárquicos, do cliente e da agência, discussões bizantinas, noites em claro, pressão de todo tipo, enfim um deus-nos acuda, como se esse posicionamento a ser definido, consagrado, tornado pétreo, fosse mudar o mundo. Mas, ufa, um dia aquela meia dúzia de palavrinhas, mais uns conectivos, é aprovada lá em cima, na cúpula, onde ficam os deuses que mandam prender e mandam soltar. Rojões, champagne, talvez até uma promoção para o redatorzinho tímido que ordenou uns termos e transformou-os no posicionamento que explica, quase desenha, para o mercado o papel da nova empresa.

E eis que a Cielo chega e avisa com todas as letras: NOSSO FOCO É DAR MAIS VOLUME AO SEU NEGÓCIO.

E eu, ingênuo, que pensava que esse era justamente o posicionamento do Viagra, outro produto que também leva ao céu.

Mas, enfim, negócio volumoso, posicionamento, essas coisas são tudo farinha do mesmo saco (ops!) e eu não tenho, afinal, nada com isso – cada um põe seu foco no volume que achar mais conveniente. Mas que cada vez que eu for passar meu cartão eu vou pensar em outra coisa, ah, isso eu vou – e acho que não só eu, se aceitamos o princípio de que todo mundo só pensa naquilo.

Zezé Brandão é publicitário, sócio da Limonada Publicidadee co-autor do livro A Vida Não é Um Limão, A Vida é Uma Limonada.


terça-feira, 10 de novembro de 2009

Você estudaria marketing ou relações públicas na UNIBAN?

Por: Zezé Brandão

Imagine a situação: você apresenta seu curriculum de candidato a uma bela vaga numa boa empresa e lá está escrito com todas as letras: formação em Marketing pela Uniban. Ou, quem sabe em Relações Públicas.

O que a Uniban acaba de fazer com todos os jovens que se formam lá foi manchar seus currículos para sempre.

O episódio Geysi Arruda, a moça do mini-vestido cor de rosa, transformou uma universidade que já não tinha a melhor avaliação do mundo numa instituição no mínimo suspeita. Suspeita de não educar, suspeita de não ter a ética entre seus valores mais importantes, suspeita de formar jovens fascistas, preconceituosos, despreparados para conviver em sociedade e para representar o futuro do país.

Readmitir a moça, depois de tê-la expulsado através de um comunicado público nos jornais culpando-a do estupro moral de que foi vítima, não isenta, não desculpa, não perdoa a Uniban da selvageria a que Geysi foi submetida sob o olhar, se não complascente, descuidado e desatento da universidade para com suas responsabilidades de instituição superior de ensino. O mal está feito. A semente da violência está plantada lá dentro, aparentemente em terra fértil, já que tanto o Conselho como a Reitoria da Uniban assinaram o comunicado em que apontam a vítima como ré e, nas entrelinhas, aceitam que uma mulher de vestido curto, curvas provocantes, saltos altíssimos e que ande desfilando por rampas e corredores de uma escola seja merecedora de ataque à sua moral e, por que não?, de estupro coletivo. Colocar a culpa na moça, de todas as saídas possíveis para a crise que a Uniban viveu e continuará vivendo, esta foi a pior de todas – a mais grave, a mais vergonhosa, a mais infame.

Suspender a expulsão de Geysi só reforça a gravidade do episódio. Porque agora não sabemos mais se a Uniban se arrependeu da própria atitude, se aprendeu alguma coisa sobre comportamento, ética e cidadania, ou se simplesmente cedeu à pressão, inclusive do mercado (seria ruim para os negócios uma imagem tão arranhada), e voltou atrás só para jogar um cálice de água no incêndio. Com os termos da expulsão, a Uniban exibia sua pior face. Com a readmissão, pode ser que tenha optado pela máscara.

Zezé Brandão é publicitário, sócio da Limonada Publicidadee co-autor do livro A Vida Não é Um Limão, A Vida é Uma Limonada.


sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Se não passou pelo YouTube não aconteceu

Por: Zezé Brandão

Há tempos se diz que a vida imita a arte e vice versa. Hoje, de certa forma, a própria vida se transforma em arte no momento em que ela invade o you tube, é consumida e midificada (vai para a mídia).

Foi assim no episódio recente em que uma garota de vestido curtíssimo – iria direto para a balada depois – e sapatos altíssimos tentou assistir suas aulas do curso de turismo da Uniban antes de cair na night. Foi impossível cumprir seu dever de aluna. Acuada aos gritos de “puuuuta-puuuuta-puuuuta”, com a multidão (no caso, turba) de rapazes e moças à sua volta, teve de ser escondida e trancada em uma sala porque dos gritos de “puuuuta” passaram às ameaças de agressão física e ao extremo do estupro.

Psicólogos, psiquiatras, cronistas e até policiais passaram os últimos dias explicando ou tentando entender o que teria levado jovens “modernos”, pois universitários, antenados, posto que frequentadores de cursos “da hora” – nada da caretice de engenheiros ou economistas --, a agirem de maneira tão selvagem, tão censora, tão moralista como se fossem um bando de inquisidores prontos a levarem à fogueira uma mulher que pura e simplesmente mexeu com suas libidos reprimidas.

Não sei se as explicações, observações ou críticas serviram para alguma coisa. Não sei, e temo que não, se a moçada tirou alguma lição do episódio ou se pelo menos sentiu a vergonha que deveria acompanhar todo o grupo (uns 700, mais ou menos) pelo resto da vida por ter protagonizado algo tão repulsivo. Jovens capazes de tal barbárie me preocupam porque são o futuro do país. E me chocam porque a reincidência é alta demais nos desvios de coduta.

Mas de tudo, o que mais me chamou a atenção nessa história é que ela só chegou à mídia e à opinião pública depois de circular por quase uma semana pelo You Tube. Ou seja: uma menina é encurralada e moralmente estuprada pelo simples crime de usar um vestido curto demais num ambiente onde meninas usam saias e blusas curtas demais com toda a naturalidade (a protagonista deste caso deve ter usado também a maquiagem, o salto, o perfume que despertaram a ira das moças e o instinto animal dos moços) e o fato só chega a público porque celulares registraram as cenas atrozes e jogaram as imagens na internet . Quer dizer, sem o You Tube nunca teríamos ficado sabendo que dentro de uma universidade, na cidade mais rica, mais informada e locomotiva do país, está sendo chocado o ovo da serpente – consta que alguns funcionários participaram e deram força à “farra da moça de vestido rosa-choque”.

Bendita internet que às vezes serve para nos abrir os olhos. Mas perigosos tempos em que a vida real só vale, só é crível, só cobra providências, se for confirmada – porque aí, sim, acreditamos – pela realidade virtual.

Zezé Brandão é publicitário, sócio da Limonada Publicidadee co-autor do livro A Vida Não é Um Limão, A Vida é Uma Limonada.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

And the Oscar goes to...

Por: Zezé Brandão

Futuro candidato aos prêmios Jabuti, Kikito e reforma da Casa Branca pelo Luciano Huck, Barack Obama abriu sua temporada de caça aos prêmios internacionais logo com o mais prestigioso de todos, o Nobel. E, rsrsrs, foi ganhando justamente o da Paz.

Não exatamente patrocinador, mas animador de duas guerras, a do Afeganistão e a do Iraque, Obama parecia meio constrangido quando veio a púlpito e a público agradecer o laurel. Provavelmente estava mais surpreso do que nós.

O mundo, diante do poderio dos Estados Unidos, apressou-se em justificar que o prêmio vinha mais como uma sugestão de comprometimento do presidente americano com a paz do que propriamente como um reconhecimento pelo seu esforço – dada a ausência de resultados de sua gestão na área, tal seria se esse Nobel tivesse a intenção de reconhecer alguma coisa.

Mas o Nobel, criado justamente por um cara que contribuiu como ninguém para a destruição, embora imensamente prestigiado pelo seu poder midiático e também pela generosidade da grana que oferece (não, Obama não mandou Michelle às compras com a dinheirama nem comprou armas para aumentar o poder de fogo dos Estados Unidos no Iraque – doou a instituições de caridade), é um prêmio político na sua essência e frequentemente injusto, exceto para os que o ganham.

A Real Academia Sueca costuma puxar o saco de presidentes americanos – três já venceram e um vice que quase chegou lá, mas foi roubado por Bush, também. Premiar Obama por suas possíveis intenções é só mais um devaneio do prêmio – originado no rastro da dinamite, o Nobel talvez queira ser apenas o que acaba sendo: um prêmio realmente explosivo – na explosão da venda de livros dos desconhecidos que ganham na Literatura, na explosão do prestígio e no valor dos patrocínios dos que ganham em Medicina, Economia, Química e Física – os cachês de palestrantes nobeliados sobem à estratosfera. E mais explosivo ainda para os ganhadores da paz que, salvo as exceções de praxe, continuam explodindo tudo que eles acreditam que deva ser explodido.

Barack Obama tem alguns anos para demonstrar que seu Nobel foi justo. Se não o fizer, tem sempre a chance de ganhar o Oscar de melhor cara de pau – por não ter tido a humildade de delicadamente recusá-lo se não tinha a plena convicção, o apoio e os meios para promover aquilo pelo qual foi premiado: a paz num mundo em que os Estados Unidos, ao longo dos anos, têm contribuído fartamente para conturbar.


Pensando melhor, quem sabe esses países nórdicos, com seu raciocínio polido e cheio de mesuras, resolveram dar o Nobel ao presidente Obama como consolação por ele ter perdido de Lula, em Copenhague, a sede das Olimpíadas.

Zezé Brandão é publicitário, sócio da Limonada Publicidadee co-autor do livro A Vida Não é Um Limão, A Vida é Uma Limonada.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

E que o Rio de Janeiro continue sendo...

Por: Zezé Brandão

Cartas de leitores na Folha de São Paulo se mordem de ódio. Como continuar alimentando o complexo de vira-latas que cultivam como flores de estufa depois do triunfo do Rio de Janeiro em Copenhague? Como manter o velho orgulho de pertencer e ajudar a construir com sua mediocridade o país de segunda classe que amam diminuir, humilhar e ridicularizar? Em nome de argumentos patéticos – com o dinheiro das Olimpíadas deveríamos construir hospitais, estradas, escolas, etc. – no fundo apenas demonstram a amargura de uma vitória brasileira com a qual não contavam e contra a qual torceram como no avesso de uma Copa do Mundo.
Se esses argumentos valessem, aqui, na China ou em Londres, por que fazer uma festa -- de aniversário, religiosa, carnaval ou casamento – se tanta gente passa fome, tem necessidades mínimas ou morre nas filas da saúde pública? Por que comemorar seja lá o que for, ser feliz ainda que momentaneamente, se há dor e miséria, choro e ranger de dentes, distribuidos aleatoriamente por toda a humanidade.
O Rio de Janeiro deveria ser um exemplo para o Brasil. Um exemplo para os espíritos estreitos e azedos – aqueles que batem com o cabo da vassoura em seu próprio teto contra o chão do apartamento de cima que se diverte com a música alta, o riso e a festa.
Quando a capital da República foi transferida para Brasília, há 50 anos, o Rio começou a ser estrangulado, humilhado, desprezado, submetido a um destino que não era o seu, de decadência, pobreza, violência e abandono. No entanto, manteve o sorriso, os braços abertos, a alegria de uma cidade iluminada, maravilhosa, que nasceu para festejar, brincar, viver. Como se os cariocas acreditassem que um dia o destino mais sonhado pelos turistas nos anos 50 resurgisse como uma manhã de sol – talvez o fato de, de fato, acreditarem, tenha levado os votantes daquela tarde em Copenhague a recusar, por imensa maioria, Chicago, Madri e Tóquio em favor do Rio.
A escolha do Rio de Janeiro, independente do carisma de Lula, das promessas sutis pela presença do presidente do Banco Central, da delicadeza do filme de Fernando Meirelles, do empenho do mago Paulo Coelho e do eterno encanto que Pelé exerce nos corações internacionais, vem como uma espécie de recado a todos os brasileiros: o gigante acordou. Espreguiçando-se alegremente à beira do berço esplêndido, depois de um sono de 500 anos, o Brasil prepara-se para ser o país a que se sempre esteve “condenado” – o país do futuro, já que, contra todos os pessimistas, os derrotistas, os que remam ao contrário, os que torcem pelo pior, os que erguem a bandeira da vira-latice, o futuro chegou. Iluminado, entre outros holofotes, pelo sol do Rio de Janeiro.

Zezé Brandão é publicitário, sócio da Limonada Publicidade e co-autor do livro A Vida Não é Um Limão, A Vida é Uma Limonada.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Será que a cidade entra nos trilhos?

Por: Zezé Brandão
Sapo de fora não chia. Ou chia? Que me importa, vou chiar – e não quero ter razão, quero apenas ser feliz, ainda que só dizendo o que penso.
Não sei quase nada a respeito da tal retirada dos trilhos da EFA. Não sei se a cidade está mobilizada ou se mobilizando. Não sei se as autoridades municipais estão tratando disso com seriedade ou à la legére. O que eu sei é que talvez nada tão importante tenha acontecido ou esteja para acontecer em Araraquara nos últimos 100 anos. Pode até parecer bobagem que a simples retirada de uns dormentes e alguns quilômetros de ferro possam significar alguma coisa para a cidade. No entanto do que se trata é de uma interferência urbana que poucas cidades experimentarão.
Alguns encaram a presença dos trilhos ali como uma espécie de divisão da cidade em duas. Outras não têm essa impressão. Eu, pessoalmente, nunca pensei no assunto. Mas o que sei é que a retirada significa a agregação de uma área urbana, em pleno centro, simplesmente espantosa. A área é imensa, com total acessibilidade da população a partir de qualquer ponto da cidade. Portanto, o destino que se pode dar a essa área diz respeito a moradores, visitantes, autoridades, sapos de fora e todas as próximas gerações de araraquarenses. Daí a responsabilidade que o assunto mais do que merece, exige, pede, clama.
Na minha ingenuidade de cidadão que deixou a cidade há quase 40 anos, mas jamais cessou de desejar para ela só o melhor, eu sonharia com um concurso internacional entre urbanistas/arquitetos/paisagistas. Que viessem projetos com o frescor de experiências utópicas. Que surgissem propostas práticas estético-culturais nas quais nunca tivéssemos pensado. Que aparecessem idéias exóticas, delirantes, improváveis, inexequíveis. Que nos abrissem a cabeça com soluções que jamais imaginamos.
Não acho que não existam em Araraquara talentos capazes de pensar essa área com imaginação, bom senso e bom gosto. Mas acredito que só uma troca com pessoas que recriaram Barcelona, que ousaram em Buenos Aires, Bilbao, Nova Iorque, Paris e Cingapura, teria a dimensão de dar à area dos trilhos um pensamento urbanístico voltado para o futuro da cidade. Qualquer escritório internacional teria interesse em participar dessa discussão estimulante e rara. E isso contribuiria imensamente para tirar o foco provinciado que a questão corre o risco de se tornar, dando a ela o enfoque merecido e justo de um acontecimento que pode dar ao perfil de Araraquara um contorno contemporâneo e, sobretudo, voltado para o amanhã.

Zezé Brandão é publicitário, sócio da Limonada Publicidade e co-autor do livro A Vida Não é Um Limão, A Vida é Uma Limonada.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Barrichelo, a (baixa) auto-estima do Brasil

Por: Zezé Brandão


Quanto ele vence, vezes que parecem sempre raras, discretamente comemoramos. Nas vezes em que perde, quebra, abandona, é atropelado, não larga ou chega em segundo, e que sempre parece ser todas as vezes, temos a ironia na ponta da língua, a piada pronta, o apelido gozador. Até a mola que atingiu o Massa, veio de onde?

Rubens Barrichelo é a cara do Brasil. Esforçado, cordial, moço de família, imposto goela abaixo a nós todos para substituir o herói, a lenda, o Senna. Não sabendo que era impossível, ele foi lá... e não fez.

A cada vitória temos a impressão de que nos olha com cara de que vocês vão ter que me engolir. E a gente engole. Mas não digere. No fundo, ou nem tão no fundo assim, gostaríamos que ele não tivesse ganho nunca, assim ele não estaria mais na Fórmula 1 e nós não teríamos mais a obrigação, nem secreta, de que ele representasse o país nos pódios do mundo ao som do hino nacional.

Sinto informá-los que o Rubens Barrichelo é o nosso mais lustrado, mais limpinho, mais transparente espelho. O espelho do Brasil.

Por onde olharmos vamos ver sempre, através dele, a imagem da nossa baixíssima auto-estima. Um país que adora rir de si mesmo, olhar para o copo e vê-lo meio vazio, ler as estatísticas e interpretá-las pelo viés do fracasso, da incompetência, do irremediável.

Se o PIB cresce 1,9% no trimestre, vamos compará-lo a algum crescimento do Canadá ou da Malásia, para mostrar que fizemos pouco. Se a produção industrial atinge um certo patamar, vamos buscar algum índice coreano para provar que o Brasil está no caminho errado. Se um filme nacional bate redordes de bilheteria é porque tem elenco da Globo. Se o Obama chama nosso presidente de o cara vamos procurar explicações técnicas na tradução do inglês para demonstrar que não foi exatamente isso o que ele quis dizer. Se conquistamos X medalhas de ouro nas Olimpíadas, lançamos logo mão de estatísticas para concluir por A+B que na relação população-extensão territorial-ouro conquistado, ganhamos menos que o Haiti. E por aí vai num rosário de derrotas como se nosso destino fosse estar sempre por baixo, naquele lugar de onde nunca deveríamos sequer ter tentado sair.

O Barrichelo nos espelha porque ele parece aceitar a derrota, o segundo lugar, a largada queimada, como uma sina que lhe cabe carregar. E a cada pódio que ele sobe, a cada champagne que ele estoura, seu olhar sempre triste nos pede desculpas por, assim, sem querer, sem merecer, sem estar escrito nas estrelas, ter vencido. E nós, do alto da nossa baixa auto-estima, explicamos logo que o Button não estava em seu melhor dia, que a sorte pela chuva ou pela seca ou pelo vento favoreveu o Rubinho, que foi mandinga do Galvão Bueno. Enfim, ok, ele venceu, mas... E a cara de que vocês vão ter que me engolir é só um disfarce, uma pequena vingança de quem, filho, neto e bisneto dessa auto-estima em frangalhos, por um instante pensa ter superado cinco séculos de complexo de vira-lata. Mas é só até o próximo Grande Prêmio quando, unidos, torceremos contra ou procuraremos outra explicação para a inexplicável Deus, que, dizem, é brasileiro, queira que não haja vitória.


Zezé Brandão é publicitário, sócio da Limonada Publicidade e co-autor do livro A Vida Não é Um Limão, A Vida é Uma Limonada.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

A Lei é seca, mas a Lei, ora a Lei...

Por: Zezé Brandão


Somos, definitivamente, o país do exagero. Exageradamente afetivos, exageradamente técnicos de futebol, exageradamente corruptos, exageradamente sem auto-estima. E de uns tempos para cá, exageradamente aferrados a leis tão severas, tão punitivas, tão completamente legais que nem podem ser cumpridas.

Dados recentes revelam que mais de 80% das pessoas pegas nos arrastões armados pela chamada Lei Seca – essa mesma que proíbe tomar dois copos de chopp e sair dirigindo – saem impunes da acusação de dirigirem embriagadas. Como? Por que?

Simples: a lei antiga dizia – ok, subjetivamente – que dirigir em estado de embriaguez tornava o indivíduo passível de sanções penais (até mesmo condenação por homicídio culposo, se não, doloso). E embora “estado de embriaguez” tenha lá sua dose (várias doses, no caso) de subjetividade, os próprios policiais ou outras testemunhas podiam confirmar o tal estado do infeliz que provocou o acidente.

Já com a nova lei, estabeleceu-se a quantidade de bebida que provoca a irresponsabilidade do motorista: os dois chopps, a dose de uísque, as duas cervejas, as inocentes duas tacinhas de vinho, e por aí. Só que como ninguém é obrigado a se submeter ao bafômetro nem ao exame de sangue, pois ninguém pode ser obrigado a produzir provas contra si mesmo, quem prova que eu bebi só um uiscão calibrado ou a garrafa toda? Não importa a língua enrolada, o trançar de pernas ou a baba grossa na gravata. Nem mesmo uma vomitada sem querer na cara do guarda pode ser usada como prova de que você passou da conta e, portanto, violou a lei – basta ter-se recusado a passar pelo bafômetro e encolher o braço gritando na delegacia que morre de medo de sangue, e que ninguém vai tirar uma gotinha do seu. Pronto, você sai livre como um passarinho. E trançando as pernas vai dormir em casa o sono dos justos, como se não tivesse atropelado e matado meia dúzia de passageiros que esperavam o ônibus às quatro e meia da manhã.

É a Lei Seca. Seca de bom senso, seca de sabedoria, seca de aplicabilidade. No resumo da ópera, com a nova lei não podemos beber mais do que um copinho ou dois, mas fora a improvável hipótese de você estar bebendo ao lado do guarda que vai autuá-lo, quem vai provar a quantidade exata que nêgo consumiu, a não ser o bafômetro ou o exame de sangue que ninguém é obrigado a fazer?

Enfim, no nosso exagero conseguimos ter a lei anti-álcool no trânsito mais severa do mundo. E também pelo nosso exagero conseguimos que ela não possa ser cumprida – graças a seu exagerado rigor.


Zezé Brandão é publicitário, sócio da Limonada Publicidade e co-autor do livro A Vida Não é Um Limão, A Vida é Uma Limonada.


quarta-feira, 19 de agosto de 2009

MARINA VOCÊ FAÇA TUDO MAS FAÇA O FAVOR.

Por Zezé Brandão


Marina Silva sai do PT, adentra o PV, vira candidata e joga folhas de seringueira no ventilador do Lula, da Dilma e de quem mais estiver no caminho.

Marina Silva dificilmente será a próxima presidente do Brasil. Isso exigiria alianças as mais escusas possíveis, leilões de cargos, promessas, concessões que Marina jamais faria.

Não tem a menor importância a elegibilidade dela ou não. A importância da candidatura Marina será, se for, um fato que vai obrigar os concorrentes, Dilma, Serra e quetais, a encarar com seriedade a questão do meio ambiente ainda que esse encaramento ( no caso, talvez, descaramento) não passe de promessas que ninguém cumprirá exceto Marina que, no mínimo, tentará.

Quem ouve uma vez um discurso de Marina jamais esquece. Algo profeta, algo messiânica, sem inflamação, sem a fúria endemoniada de um Collor, ela atira as palavras como flechas certeiras. Ela fala das gerações que estão por vir enchendo os corações da platéia de uma culpa saudável porque cria a urgência da ação, a responsabilidade pelo futuro, a necessidade da atitude, aqui, agora, sem desculpas, sem tempo a perder.

Com emoção, delicadeza e profunda poesia, Maria fala de rios que correm dentro de nós, de veios e subsolos, de sustentabilidade, de florestas, de pássaros, de oceanos e filhotes que não terão mães para amamentá-los, extinguindo-se à míngua à beira de usinas apressadas que nem se sabe se servirão para alguma coisa.

Não, Marina Silva ao menos essa é a minha impressão pessoal não é uma fanática que deseja que voltemos todos à condição de índios; ela não prega o fim do progresso nem o fim da produção de energia elétrica ou novas estradas. Ela prega, com sua voz pequena, a extrema magreza de quem viu a fome de perto, que homem e natureza convivam com respeito e que todos nós reflitamos e repensemos o país como se houvesse amanhã.

Nem o Brasil nem o mundo estão preparados para ouvir essa voz solitária. Mas, se de fato ela for candidata à presidência da Republica, seremos obrigados a ouvir um discurso a que não estamos acostumados. O discurso da vida, da preservação, do futuro. E da viabilidade do planeta diante das evidências do fim. Aos outros candidatos caberá encaixar, ainda que artificialmente, palavras mais doces em seus comícios furiosos, porque espadas ferem, mas são impotentes diante da poesia.


Zezé Brandão é publicitário, sócio da Limonada Publicidade e co-autor do livro A Vida Não é Um Limão, A Vida é Uma Limonada.



sexta-feira, 31 de julho de 2009

Sobre putas e lipos.

por Zezé Brandão


Em seu artigo semanal na Folha de São Paulo, o psicanalista Contardo Caligaris questionou o interesse de parte da imprensa italiana pela vida sexual do premier Silvio Berlusconi. O argumento dele, que detesta o Berlusconi, é que se as putas do homem não interferem na governabilidade do país, ninguém tem nada a ver com o que ele faz, ou não faz, entre quatro paredes.

Está aí embutido um questionamento que provavelmente surgiu junto com o Guttemberg: até onde a imprensa tem o direito de ir em se tratando de investigar a vida de pessoas públicas. E pior: até onde tem o direito de divulgar os fatos que descobre, às vezes por meios escusos, quando esses fatos não dizem respeito, não prejudicam ou nada significam em relação à atividade que tornou a pessoa relevante para uma determinada comunidade – seja uma sociedade, um condomínio, um país ou um clube?

É o caso da lipoaspiração do Ronaldo. Que ele se submeteu ao procedimento, parece ser um fato – vindo à tona sabe-se lá por que rede de indiscrições. Mas o que isso tem a ver com a performance do jogador, com sua capacidade, ou não, de fazer gols? O que a torcida do Corinthians e os leitores do Estadão e a favela da Rocinha e os moradores do Oiapoque (lá tem moradores?) têm a ver com isso?

Explicar a cirurgia da mão, contar os pinos, apresentar o cronograma da recuperação, sim, é obrigação da imprensa: a fratura se deu em campo, a consequência era o afastamento do cara de algumas partidas do Curingão. Portanto, o assunto, relevante para a torcida, para os fãs de Ronaldo, para o clube, merecia, como mereceu, ser detalhado, esmiuçado, publicado com todas as letras.

Mas a lipoaspiração? Francamente! Se ele não chamou a imprensa para uma coletiva, se ele não convocou as colunas de fofocas, se ele preferiu a discrição, que direito temos de questionar uma cirurgia estética hoje tão corriqueira e, pior, transformar um direito, uma escolha pessoal, em motivo de chacota?

Quando a Suzana Vieira, em pessoa, apresenta seu namorado de vinte e poucos anos à imprensa e diz que pretende ter um filho com ele, OK. Embora seja um fato irrelevante para a carreira ou para a performance dela como atriz, a simples decisão de querer que todos nós saibamos que ela namora um garotão é, em si, a notícia. Mas o Fenômeno se submeter a uma lipo em segredo não é notícia. É fofoca, velhacaria e pura e simples invasão de privacidade. Esse tipo de jornalismo antigamente era designado por uma cor: a cor marrom.


Zezé Brandão é publicitário, sócio da Limonada Publicidade e co-autor do livro A Vida Não é Um Limão, A Vida é Uma Limonada.

La mano de Dios

por Julia Brandão

O que se dá no encontro de dois egos? Assistindo a Maradona by Kusturica é possível ter boa parte da resposta. O encontro de Don Diego Maradona, el Dios del fútbol, e Emir Kusturica, que apesar de ser um dos grandes do cinema, ainda está longe de receber o título de Deus, é quase um mais do mesmo, mas emociona.

Imagens do bairro pobre onde Maradona nasceu, algumas entrevistas em que o ídolo fala de seus ídolos, Fidel Castro e Che Guevara, pelos quais “daria a vida”. George W. Bush, a quem chama de assassino, a igreja maradoniana que até casamento celebra e que ao invés do
Pai Nosso reza Maradona Nosso e em 90 minutos Kusturica tenta traçar o perfil de Don Diego.

Não esquece o lado “político” de seu personagem e faz muita graça com o gol de mão mais famoso do mundo, contra a Inglaterra na Copa de 86, que Diego classifica como uma “patifaria” que os pobres fizeram aos poderosos do mundo. Tal como as suas vitórias quando jogava no Nápoles, foram derrotas que o pobre Sul infligiu ao rico Norte, uma coisa quase impossível na Itália.

Kusturica também fala de si e traz muitas imagens de sua filmografia,
Você se lembra de Dolly Bell?, Quando Papai saiu em viagem de negócios e Gato Negro, Gato Branco: “Diego Maradona é um personagem de cinema, podia ser um personagem dos meus filmes. É como aquele homem que é o seu pior inimigo, que causa a sua própria perda, em Gato Preto, Gato Branco”, filme em que também há muita cocaína, aquilo que fez Maradona perder consciência.
E é falando da cocaína que o ídolo lembra o grande que é e questiona: “E se não fosse a coca, que jogador eu poderia ter sido?”. Maior ainda? Ele tem a plena certeza que sim, eu diria: solo Dios o quizás, las manos de Dios.


Julia Brandão é produtora de cinema

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Um cinema chamado Capri

por Zezé Brandão

A febre de modernidade que contagiou o Brasil a partir de Juscelino Kubitschek, e que culminou com a inauguração de Brasília, chegou a Araraquara no início dos anos 60 com o projeto de um cinema que ocuparia o prédio do antigo Paratodos.
Em 1963, no lugar do velho – e belíssimo palácio que era o Paratodos – surgiu o Capri, um verdadeiro compêndio do que era moderno em termos de arquitetura e decoração naquela altura do século XX.
Não sei o que é feito do Capri hoje. Sei que está fechado, não faço idéia de em que estado de conservação (ou falta de). Mas o que eu sei é que a cidade um dia teve um Theatro Municipal que veio abaixo em nome de quê mesmo? E o Clube 27 de Outubro e o 22 de Agosto? E sei também que o Capri – se preservado e mantido seu projeto original – é um dos mais belos exemplos do que foram os últimos cinemas concebidos para serem belos no Brasil e no mundo. Porque a década de 60 registrou as últimas casas de exibição projetadas para serem templos da magia dos filmes, esplendorosas em sua modernidade e tecnologia – e isso no mundo inteiro. E no mundo inteiro esses cinemas sumiram na poeira do tempo, engolidos por supermercados, igrejas, bancos e estacionamentos.
No entanto o Capri ainda está de pé. A ninguém ocorre (alô, prefeito!) manter viva essa fatiazinha de história da cidade? Esse monumento ao que um dia se chamou “um programa para toda a família” – que era ir ao cinema? A ninguém ocorre preservar o Cine Capri em sua beleza original, entregando às próximas gerações um espaço que pertenceu a seus pais e avós desde aquele 22 de agosto em que as luzes se apagaram para a exibição de “O Candelabro Italiano”?
Quarenta e seis anos se passaram desde aquela noite, um domingo. Para a História, 46 anos não são grande coisa. Mas se há na cidade alguém que pensa no futuro, e que tenha meios e/ou autoridade para isso, daqui mais 46 ou mais 56 anos a cidade poderia estar mostrando ao mundo como era um lindo cinema de um século atrás, onde se viviam as emoções de um filme, na época em que o Brasil sonhava ser um país moderno e tinha a convicção de que era o país do futuro. Ainda há tempo de alguém acordar e enxergar o Cine Capri não como um galpão adequado a uma igreja evangélica ou um bom terreno para se construir um prédio de apartamentos, mas como uma página de História escrita na forma de drama, comédia, aventura e romance.

Zezé Brandão é publicitário, sócio da Limonada Publicidade e co-autor do livro A Vida Não é Um Limão, A Vida é Uma Limonada.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Pra lá de Marrakesh

por: Julia Brandão

Por muito tempo, a única imagem que me vinha à cabeça quando pensava no Marrocos era a do deserto do Saara. E, talvez, de alguns camelos e mulheres de burca. E como me esquecer do Marrocos recriado por Glória Perez, creio que pior do que a Índia tupiniquim que atualmente faz ponte-aérea com Rio de Janeiro.
Mas, confesso, era leiga na cultura do país. Fui viver na Espanha, ou melhor na
Catalunya, em Barcelona. E o Marrocos mora ao lado. Todo espanhol, catalão vai até lá com a mesma normalidade que nós vamos à Argentina. E é impossível não se envolver.

Claro, fui até lá. Em um dado momento, Francesca, uma grande amiga italiana que adorava todo o tipo de coisas alternativas, propôs irmos a um festival de música Gnawa, tradicional do país. Música de escravos vindos de Guiné, de onde também saíram muitos escravos que foram enviados ao Brasil. Talvez por isso em alguns momentos a música Gnawa e o ritmo da capoeira se confundam.

Para chegar ao festival, passaríamos por Marrakesh e ficaríamos alguns dias. A cidade é um escândalo. É linda, é feia, é rica, é pobre, exuberante, decadente, com um sol que o arrebata e com uma noite cheia de mistérios e magia. Vale a viagem do começo ao fim. Mas ali era o início da jornada. O destino mesmo era Essaouira.
Essaouira é a cidade das paisagens do filme
Casablanca, de Michael Curtiz. É onde Orson Welles rodou Othello, em 1952. Onde Jimmy Page e Robert Plant deram um tempo e gravaram com uma banda Gnawa. Jim Morrison e Jimi Hendrix também contribuíram para a fama da cidade de paraíso dos hippies. Em Diabat, uma cidadezinha muito menor que Bueno de Andrada, Hendrix escreveu Castles Made of Sand, justamente quando morava em um castelo de frente para o mar. O castelo ainda está lá, digo, ruínas do castelo.

Para resumir, só estando lá para saber. Por fim, eu estava pra lá de Marrakesh. E é bom demais!


PS: Marrocos concilia perfeitamente três coisas muito importantes para a indústria cinematográfica: paisagens únicas e desconhecidas, segurança e não é caro. Alguns filmes rodados pelo país: O homem que sabia demais, de Alfred Hitchcock, Lawrence da Arábia, de David Lean, Jesus da Nazaré, O Céu que nos Protege, de Bernardo Bertolucci, O Gladiador, de Ridley Scott, A última tentação de Cristo, de Nikos Kazantzakis e Martin Scorsese, Homem Que Queria Ser Rei, de John, Alexandre O Grande, de Oliver Stone, entre muitos outros

Julia Brandão é produtora de cinema

quarta-feira, 22 de julho de 2009

A propaganda pirou

por Zezé Brandão

Um comercial do Ford Fusion, atualmente no ar, não deixa dúvidas: clientes e agências de propaganda definitivamente piraram. Um homem e uma mulher, aparentemente colegas de trabalho, almoçam juntos. Trocam idéias, riem, etc. De repente ela pergunta: “onde você quer estar daqui a 5 anos?” Ele pensa e subitamente sonha. A imagem mostra que ele quer estar dirigindo um Fusion e com ela ao lado, como sua provável namorada, mulher ou amante. Então é a vez dele fazer a mesma pergunta. Ela reflete por um segundo e já está sonhando com o futuro: mais ou menos a mesma imagem anterior, com ele dirigindo. Só que ela está sentada atrás lendo um jornal: ele é o motorista dela. Segue assinatura: algo como QUEM TEM UM FUSION FEZ POR MERECER.

Não é um primor de falta de senso de noção? A Ford anuncia um automóvel soit disant de luxo, caro, pretensamente objeto de desejo, e coloca como público-alvo o jovem executivo, promissor, tudo certinho – só que o que ele faz por merecer é se transformar em motorista de madame. Em propaganda isso se chama ruído – no caso, um barulhão ensurdecedor. E o comercial, não contente com o ruidaço, ainda tem outro, também bem barulhento: como a pergunta é “onde você quer estar daqui a 5 anos?”, duas pessoas modernas e ambiciosas desejarem estar dirigindo um carro de cinco anos atrás, francamente!
Como eu disse uns dias atrás a propósito de uma maionese, mudam as modas, mudam os penteados, mas uma coisa eu tenho certeza que não muda nunca: a percepção do consumidor quando é colocado diante de uma mensagem cheia de ruídos. Ele pode até não se dar conta, mas, pelo menos inconscientemente registra que um carro que o vê como motorista de perua, ninguém merece.


Zezé Brandão é publicitário, sócio da Limonada Publicidade e co-autor do livro A Vida Não é Um Limão, A Vida é Uma Limonada.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Será que nêgo foi mesmo à Lua?

por Zezé Brandão


Quando você vê filmes como “O Dia Depois de Amanhã”, “Eu Sou a Lenda”, “Marte Ataca”, “Guerra nas Estrelas”, “2001” e mais milhares de outros desse mesmo tipo, produzidos pelos americanos às pencas, e há décadas, você tem todo o direito de se perguntar se esses gringos pisaram mesmo na lua em 1969, ou se somos todos vítimas de uma farsa que perdura há quatro décadas.

Pelo mundo afora, grupos, alguns organizados em comunidades na internet, baseados em argumentos ora sólidos, ora frágeis, discutem as possibilidades, para eles bem reais, de termos todos sido enganados pelo que eles chamam de “factóide Apollo 11”.

Da maneira como tremulou a bandeira americana fincada na lua – bandeira tremula no vácuo? – à, garantem, improbabilidade de seres humanos sobreviverem àquele ar (falta de) rarefeito, motivos não faltam aos descrentes (quiçá aos realistas) para suspeitar que tudo não passou de uma demonstração de poderio dos Estados Unidos ante à agressiva conduta da União Soviética em relação à corrida espacial. Pousar homens na lua, que caminhariam sobre aquele solo e hasteriam as “stars and stripes forever”, tremulantes de patriotismo, mostraria aos russos, e ao mundo, que a América não era fraca, não.

E o efeito desejado foi atingido em cheio. Se nossos queixos cairam, imagine os dos russos. Aliás, a União Soviética foi ficando tão jururu depois que perdeu o bonde da lua que 20 anos depois já nem era mais a União Soviética.

Agora, fala sério: com a precariedade da tecnologia televisiva dos anos 60 (por aqui nem era colorida) e a crença mundial de que os Estados Unidos eram capazes de tudo – só agora essa crença desmoronou –, que dava para montar um espetáculo daqueles em estúdio, ah, isso dava.

Pensando bem, tanto faz se os americanos pisaram ou não na lua em 1969. Se foi só uma fraude, convenhamos que o segredo ficou muito bem guardado. Se foi verdade, o que é que nós ganhamos, ou perdemos, com isso? Mas, pensando melhor, o quê mesmo eles foram fazer lá, fora o fato de encher profundamente o saco da União Soviética?


Zezé Brandão é publicitário, sócio da Limonada Publicidadee co-autor do livro A Vida Não é Um Limão, A Vida é Uma Limonada.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

O sol na nossa cara é o mesmo sol da nossa casa

Por Otaviana Costa


Há quem diga, hoje, que o sol é um grande inimigo. Mulheres chefiam os defensores da ideia. E são as maiores consumidoras de cremes bloqueadores solares, seguidas bem de perto pelos homens mais informados sobre a situação de nossa camada de ozônio. A cada dia, o sol é mais humano e menos divino!
Por hora, ao menos, não é sobre o desgaste cósmico que venho a tratar. Devo recordar um fato ocorrido em 2001, que perdurou até 2002: a crise do APAGÃO. Lembram-se? O governo ensinou à sociedade, na prática, o que era racionalização: racionalizar água, racionalizar energia elétrica e até energia mental, mesmo porque, com o governo, não adiantava muito discutir. Enfim, foram dias e dias de privações de conforto; mas, para alguns, foi o momento de despertar.

Se estávamos todos passando pelo mesmo período ruim, então é muito provável que, se não houvesse mudança, teríamos, ou teremos, mais racionalizações, menos liberdade e mais caos.
Dos que despertaram do sono profundo, surgiu a vontade de aproveitar as noções que já vinham sendo estudadas há bastante tempo por outros pesquisadores não sonolentos, mas preocupados com as próximas gerações. Surgiram, assim, algumas ações: pôr em prática as células fotovoltaicas para extrair a energia desse sol exacerbado que todos tanto temiam e evitavam. Agora, engenheiros haviam dado uma finalidade ao sol, e não era a de fazer marquinha de biquíni com mais perfeição, nos bumbuns mais badalados, mas sim de transformar o calor recebido pelo sol, por meio de sua luz, fazendo-o passar pelas células fotovoltaicas e tornar, no final, energia elétrica. Ufa! Casas praticamente ganharam adornos em seus telhados, com as reluzentes placas produzidas a partir de silício, que podiam garantir um banho quente por mais dez ou quinze minutos, além de proporcionar algum status, pois o silício é um material de alto custo. Como, para avalizar o bom funcionamento de aparelhos elétricos e eletrônicos, fazem-se necessária não uminha, mas algumas placas, a mordomia não era, e ainda não é, acessível a todos os bolsos.

Na arquitetura, porém, o sol vem fazendo crescer bons frutos, gerando parcerias com instituições de pesquisas e desenvolvimentos na área. A cada ano é notável o aprimoramento nos setores de acabamento, de revestimento cerâmico e até de iluminação, para fornecer aos seus novos consumidores produtos de baixo consumo, como a tecnologia de sensores, que reduz ainda mais o uso de luz artificial, priorizando a luz natural.
E a preparação para quem vê vem muito antes do projeto, vem antes ainda da planta e dos cortes. Começa na sala de aula: nos primeiros anos de faculdade, em que os docentes têm de preparar o aluno, insistindo na visão de criatividade renovável, mostrando ao “futuro arquiteto do futuro” que, talvez, ele terá de voltar à taipa, caso queira preservar seu planeta.
Soluções diferenciadas, pesquisas embasadas no passado, estudos sobre fenômenos atuais. Os alunos de hoje aprendem, por meio do monitoramento solar, formas inusitadas de aproveitamento do sol.

É fato que o Brasil vem se aprimorando, e se destacando, nesse conceito de construção sustentável; aqui faz sol quase o ano todo. Prova desse aprimoramento é a disputa que o país travará, representado por arquitetos graduados, em junho de 2010, nos Estados Unidos, cujo desafio consiste em edificar e habitar uma casa operante apenas com energia fotovoltaica, térmica e solar. Pela primeira vez, o Brasil participa de tão importante competição de arquitetura, urbanismo e construção fora de seu território. Segundo José Kós, coordenador do projeto de arquitetura da equipe nacional, os integrantes da delegação, provenientes de estados brasileiros distintos, deverão construir a casa em Madri, uma semana antes da disputa. Só aí o júri avaliará os quesitos fundamentais, como o tão comentado aproveitamento solar, a eficiência energética e o conforto com sustentabilidade, além de design e funções arquitetônicas.
É claro que desejo boa sorte a eles. Sou brasileira. Mas, antes da minha nação, sou cidadã do mundo. E quero e acredito em um mundo sustentável. Um mundo sustentável é muito mais razoável do que um mundo fadado aos racionamentos e cremes bloqueadores solares. Para tanto, é essencial que raciocinemos a respeito de nosso respeito próprio.


Otaviana Costa é estudante de arquitetura

Pra não dizer que não falei de flores

Por Zezé Brandão

Rios de tinta, florestas de papel vêm sendo gastos para nos espantar, estarrecer, chocar todos os dias, a cada jornal da manhã, com os escândalos do Senado presidido pelo sr. José Sarney, eleito pelo Amapá e membro da Academia Brasileira de Letras por suas contribuições lítero/humanistas por um mundo melhor, mais sensível e mais delicado.
Fora o fato de presidir um senado podre, corroído pela imoralidade, assentado sobre a falta de ética, de compostura, de educação, de honestidade e de bom senso, resta o fato de ser ele mesmo, o sr. José Sarney, protagonista de escândalos pessoais – nomeações de parentes, mansão não declarada, auxílio moradia irregular e mais milhares de etcéteras. E esse é o fato: o ex-presidente da República, esse homem incomum, não deveria estar causando nenhum espanto na opinião pública nem motivando esses rios de tinta e florestas de papel que denunciam suas falcatruas. Olhem para o Maranhão e concluam comigo: alguém que reina soberano, ele e sua família, num Estado que tem o segundo pior Índice de Desenvolvimento Humano do país, pode prestar? Que estofo tem esse homem? De que matéria é feita esse homem?
Há bem mais de meio século os Sarney mandam e, principalmente, desmandam; pintam e bordam (as próprias paredes e almofadas) no Maranhão e mantêm o Estado numa situação de penúria e subdesenvolvimento que joga para baixo todos os índices do Brasil – da mortalidade infantil à renda per capita; do número de analfabetos à expectativa de vida. Essa é a contribuição do sr. Sarney à história brasileira: mostrar ao mundo a face mais miserável do país e orgulhar-se de ter ajudado a escrever essa história explorando a pobreza, a ignorância, a humildade de um Estado tão lindo que ele condenou a não ter futuro. As placas, avenidas, palacetes, memoriais, aeroportos que ostentam os nomes reluzentes da família Sarney estão todos lá, escancarados Maranhão afora, como provas incontestes de que aves de rapina, predadores, coiotes famintos passaram por lá – e todos com o mesmo sobrenome: Sarney.
Com esse passado por que deveríamos esperar do sr. José Sarney algum tipo de decência? Denunciá-lo por qualquer coisa é uma enorme perda de tempo e de tinta, etc. Sua história já estava escrita muito antes de ele chegar, pela terceira vez, à presidência do Senado brasileiro. O dono do mar(anhão) sempre foi transparente. Só não viu quem não quis.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Qual maionese? Qualquer maionese.

E-mail do Zezé:

"Ju, tomei gosto"

Então, segue o próximo texto dele.

Por Zezé Brandão:

Há muito tempo atrás, quando ainda se amarrava cachorro com linguiça, rezavam as cartilhas de marketing que num comercial de TV, de 30 segundos, nos primeiros quatro já era obrigatório dizer o nome do produto anunciado. E nos seguintes 26 (segundos), o mesmo nome deveria ser repetido outras oito vezes. Assim, ao longo dos anos, guardamos nomes mágicos como Kollynos, Marlboro, Coca-Cola, Leite Ninho, Sabonete Lux, Colgate, Extrato de Tomate Elefante, Kellogs, Omo e por aí vai.
Mudaram os tempos, os conceitos, os penteados. E os comerciais. Recentemente, e acho que ainda está no ar, um comercial de maionese jura que a tão demonizada maionese tem só 40 calorias e que, portanto, o que se pensava ser um verdadeiro entope-veia não passa de inocentes colheradas de saúde. Sei lá, se há uma comprovação científica, a marca encontrou um “achado”: desdemonizar o que antes, para os saudavelmente corretos, era uma condenação.
O comercial então pergunta a uns e outros quantas calorias cada um acha que a tal da maionese tem. E, com grande impacto, as opiniões variam de 800 a mais de mil, até a grande surpresa da conclusão: só 40. E não é que em toda a parte final do comercial já não se fala mais a marca da dita cuja?
Terminados os 30 segundos, o próprio comercial nos leva a concluir que qualquer maionese tem baixa caloria – já que, sabemos, as fórmulas são idênticas para todas. Quando o marido liga para a mulher dizendo “que a maionese tá liberada” respiramos aliviados: podemos comprar a mais barata já que são todas mais ou menos iguais. Como o custo de mídia é altíssimo, a Hellmann's pagou a conta e a categoria agradeceu. Pois é, já não se amarram mais cachorros com linguiça como antigamente.

Zezé Brandão é publicitário, sócio da Limonada Publicidade e co-autor do livro A Vida Não é Um Limão, A Vida é Uma Limonada.